Quatro chamas rodeando um corpo semelhante àquele de Hermafrodito depois da sua união com Salmácis. O seu gesto é um misto de recolhimento e abandono. Eis a imagem da capa da publicação de Bruno Cadinha e Odete C. Ferreira, que acompanha o espectáculo Drlng. Mas a publicação – e o espectáculo – não invocam qualquer subtexto mitológico como a nossa descrição parece sugerir. Ao invés, ambos os dispositivos invocam questões acerca de identidade e de linguagem, e de como uma está para a outra e vice-versa; questões acerca da disponibilidade do espaço performativo; sobre a pertença, a realidade, ou acerca de violências e necro-acções.

Tanto na publicação como no espectáculo, somos levados ao problema dos limites da linguagem para expressar as nossas realidades. As nossas realidades, e por consequência a nossa identidade, são afectadas por essas fronteiras linguísticas. Será que não existe aquilo que a linguagem não nomeia? Em Drlng escreve-se: «Só “possuímos” a linguagem que nos torna inexistentes», isto é, apenas existe a linguagem que involuntariamente nos exclui; e afirma-se que «O nosso quotidiano acontece por entre as falhas, buracos, margens, incapacidades, invisibilidades, dos discursos vigentes (…)». A marginalização da identidade através do estabelecimento de uma linguagem hegemónica e pouco flexível é uma das violências que os textos e os discursos de Drlng nos apresentam como necrófilas. Não apenas em termos da marginalização mas também da anulação da existência social através das dificuldades vocabulares da norma – «nem sequer sabemos (nós e os outros) relacionarmo-nos (…) – a nossa intimidade é vedada pelo verbo que não nos descreve». Drlng mostra-nos o combate que é a construção de uma identidade ausente do espectro verbal existente. E assim a linguagem torna-se uma presença corrosiva e cancerígena. Se “no início era o verbo”, então condenamos tudo aquilo que existe fora da linguagem a ser uma não-realidade: onde está a palavra das realidades cuja verbalização foi sendo obliterada?

O espectáculo pode fazer-nos entender essa ausência e despertar-nos o desejo de colmatar a falta que existe no discurso e que nos tornaria não-sujeitos, por causa da alienação e desautonomização do indivíduo e da sua simultânea objectificação.

Outra questão interessante é a da identidade relativa à pertença. Oscar Wilde escreveu que a vida imitaria a arte; hoje sabemos a suma importância das referências familiares, culturais, históricas, etc., na nossa essência individual e no nosso percurso de vida. Mas, e se não há referências? O que acontece quando a história peremptoriamente apagou, ou por vontade ou por descuido, muito do discurso que não se inseria no seu espectro de abordagem? E quando certo tipo de arte ou artista é conduzido ao esquecimento? Em Drlng, curiosamente, algumas dessas referências são recuperadas através da pesquisa em arquivo: nomeamos Gisberta, Pedro Furtado (processo da Torre do Tombo, acusado de se fazer passar por mulher, por «luxúria», «heresia» e «sodomia»), “Estevão, o Cobra de alcunha Luís” (processo da Torre do Tombo, acusado de «bruxaria», «pacto com o demónio», «superstições» e «sodomia», com a seguinte nota: «desconfiando-se que o réu era hermafrodita […]») e o caso da “Mulher-Homem chegada a Lisboa e que a polícia levou ao Governo Civil (tendo declarado o médico tratar-se de um caso de hermafroditismo)”. Na publicação, a categoria é: «I cannot find myself in history». Está-se perdido numa história pouco conivente com a realidade histórica. Drlng torna-se assim exemplo de um espaço em porvir, da procura do preenchimento de um não-espaço histórico-relacional fundamental para a identidade.

Mais do que uma descrição ou abordagem artística dos problemas de género ou das questões queer que se possam apresentar, talvez o espectáculo procure uma vivência que ultrapasse essas questões, ou proponha uma reflexão individual ou em comunidade acerca das interrogações que fomos referindo – é que esta performance não oferece um modelo estabelecido mas sim um espaço de diálogo. E essa é das coisas mais surpreendentes em Drlng: o espaço circular e as paredes cobertas de ideias que se inter-relacionam, como se fossem caminhos peripatéticos de resposta e interrogação encadeadas, como se fosse um convite à criação de linguagem e de história, à escavação arquivística, à recuperação de uma memória colectiva; um convite à criação como se nós fôssemos seres divinos e um convite ao fim da carência. Houve espaço para nós, para os momentos de Bruno e Odete dentro e fora do círculo em conversa ou monólogo; para uma energia criativa e não destrutiva, espaço para uma fuga à necro-acção.

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