11 octobre 2017

Androgineceus

DRLNG
Bruno Cadinha | Odete C. Ferreira

Quatro chamas rodeando um corpo semelhante àquele de Hermafrodito depois da sua união com Salmácis. O seu gesto é um misto de recolhimento e abandono. Eis a imagem da capa da publicação de Bruno Cadinha e Odete C. Ferreira, que acompanha o espectáculo Drlng. Mas a publicação – e o espectáculo – não invocam qualquer subtexto mitológico como a nossa descrição parece sugerir. Ao invés, ambos os dispositivos invocam questões acerca de identidade e de linguagem, e de como uma está para a outra e vice-versa; questões acerca da disponibilidade do espaço performativo; sobre a pertença, a realidade, ou acerca de violências e necro-acções.

Tanto na publicação como no espectáculo, somos levados ao problema dos limites da linguagem para expressar as nossas realidades. As nossas realidades, e por consequência a nossa identidade, são afectadas por essas fronteiras linguísticas. Será que não existe aquilo que a linguagem não nomeia? Em Drlng escreve-se: «Só “possuímos” a linguagem que nos torna inexistentes», isto é, apenas existe a linguagem que involuntariamente nos exclui; e afirma-se que «O nosso quotidiano acontece por entre as falhas, buracos, margens, incapacidades, invisibilidades, dos discursos vigentes (…)». A marginalização da identidade através do estabelecimento de uma linguagem hegemónica e pouco flexível é uma das violências que os textos e os discursos de Drlng nos apresentam como necrófilas. Não apenas em termos da marginalização mas também da anulação da existência social através das dificuldades vocabulares da norma – «nem sequer sabemos (nós e os outros) relacionarmo-nos (…) – a nossa intimidade é vedada pelo verbo que não nos descreve». Drlng mostra-nos o combate que é a construção de uma identidade ausente do espectro verbal existente. E assim a linguagem torna-se uma presença corrosiva e cancerígena. Se “no início era o verbo”, então condenamos tudo aquilo que existe fora da linguagem a ser uma não-realidade: onde está a palavra das realidades cuja verbalização foi sendo obliterada?

O espectáculo pode fazer-nos entender essa ausência e despertar-nos o desejo de colmatar a falta que existe no discurso e que nos tornaria não-sujeitos, por causa da alienação e desautonomização do indivíduo e da sua simultânea objectificação.

Outra questão interessante é a da identidade relativa à pertença. Oscar Wilde escreveu que a vida imitaria a arte; hoje sabemos a suma importância das referências familiares, culturais, históricas, etc., na nossa essência individual e no nosso percurso de vida. Mas, e se não há referências? O que acontece quando a história peremptoriamente apagou, ou por vontade ou por descuido, muito do discurso que não se inseria no seu espectro de abordagem? E quando certo tipo de arte ou artista é conduzido ao esquecimento? Em Drlng, curiosamente, algumas dessas referências são recuperadas através da pesquisa em arquivo: nomeamos Gisberta, Pedro Furtado (processo da Torre do Tombo, acusado de se fazer passar por mulher, por «luxúria», «heresia» e «sodomia»), “Estevão, o Cobra de alcunha Luís” (processo da Torre do Tombo, acusado de «bruxaria», «pacto com o demónio», «superstições» e «sodomia», com a seguinte nota: «desconfiando-se que o réu era hermafrodita […]») e o caso da “Mulher-Homem chegada a Lisboa e que a polícia levou ao Governo Civil (tendo declarado o médico tratar-se de um caso de hermafroditismo)”. Na publicação, a categoria é: «I cannot find myself in history». Está-se perdido numa história pouco conivente com a realidade histórica. Drlng torna-se assim exemplo de um espaço em porvir, da procura do preenchimento de um não-espaço histórico-relacional fundamental para a identidade.

Mais do que uma descrição ou abordagem artística dos problemas de género ou das questões queer que se possam apresentar, talvez o espectáculo procure uma vivência que ultrapasse essas questões, ou proponha uma reflexão individual ou em comunidade acerca das interrogações que fomos referindo – é que esta performance não oferece um modelo estabelecido mas sim um espaço de diálogo. E essa é das coisas mais surpreendentes em Drlng: o espaço circular e as paredes cobertas de ideias que se inter-relacionam, como se fossem caminhos peripatéticos de resposta e interrogação encadeadas, como se fosse um convite à criação de linguagem e de história, à escavação arquivística, à recuperação de uma memória colectiva; um convite à criação como se nós fôssemos seres divinos e um convite ao fim da carência. Houve espaço para nós, para os momentos de Bruno e Odete dentro e fora do círculo em conversa ou monólogo; para uma energia criativa e não destrutiva, espaço para uma fuga à necro-acção.

I/O n°117

IO n°117

PODCAST

Offre de stage

ANNONCE

À LIRE

CND
Théâtre public

FACEBOOK

Derniers articles de Duarte Bénard da Costa

Bastante sobre o Algarve, pouco sobre a Vera

Muito se pode escrever ou pensar sobre a Orada dos anos 30 e a Albufeira actual. Ao fazê-lo, corremos o risco de ser levados pela generalização e pelo saudosimo, ou por um certo conservadorismo, ou até pela tentação do conforto que o silêncio nos traz. Por outro lado, muito se
29 mai 2017

Bacchanalia Dancing

The Bacchae of Euripides wander around a mystic ecstasy; The Bacchae by Marlene Monteiro Freitas run about a contemporary madhouse. The former has bodies and wine in the middle of woods with a massive fire – people taken by Bacchus dance until the non-thought; the latter has light, noise, plastic
11 mai 2017

A Boy’s Tale

Is it still possible for art to be political? Is theatre a way of explaining something to someone? Is it possible that art changes our reality? My little cousin says it is. The play by Inês Barahona and Miguel Fragata believes it. After the play, we had to deal with
25 avril 2017

Poupées mécaniques

Tic-tac. Le temps ne s’arrête pas. Dans « Brother », de Marco da Silva Ferreira, on contemple un danseur-marionnette orchestré par ses propres fils ; des interprètes qui dansent sur un mode systématique au son d’une musique-horloge, avec des mouvements concertés, prévisibles comme ceux d’une machine – évocation de l’immaturité de Pinocchio, souvenir de
17 avril 2017