29 mai 2017

Bastante sobre o Algarve, pouco sobre a Vera

Pão Rico
Vera Mantero
DR

Muito se pode escrever ou pensar sobre a Orada dos anos 30 e a Albufeira actual. Ao fazê-lo, corremos o risco de ser levados pela generalização e pelo saudosimo, ou por um certo conservadorismo, ou até pela tentação do conforto que o silêncio nos traz. Por outro lado, muito se pode também sentir e pensar sobre Pão Rico, de Vera Mantero, embora, ao fazê-lo, corramos o risco de nos juntar ao tal saudosismo, lembrar memórias de uma certa ataraxia, quiçá provar de um quase conservadorismo.O Algarve de Vera Mantero não é mais a costa do paraíso escondido, não é mais o canto veranil de certas famílias ou o poiso permanente de alguns pescadores; o Algarve de Vera Mantero já não tem sinais de fogo nem ocasionais saqueadores marítimos.

Pão Rico, título aliás extremamente adequado, significa artificialização. Em Portugal o pão mais pão será aquele feito por mãos e força de braços, de madrugada, cuja côdea contrasta crocantemente com o miolo claro e fresco. O pão rico é um pão tão pouco pão, um desses ofensivos géneros alimentícios em que a côdea se confunde com o miolo, e nalguns casos até se suprime a camada exterior e naturalmente mais cozida – eis o pão rico sem côdea.

Em Portugal, Algarve significou uma longa viagem de carro, vários farnéis e paragens para descansar, pela estreiteza dos montes onde circulava a estrada antiga; significou pesca para uns e, para outros, a casa dos tios de Tavira e uma estada com amigos pelos longos meses de Verão; enfim, uma convivência familiar, uma Balbec quase portuguesa.  Pão Rico mostra-nos uma terra onde a côdea se mistura com o miolo, onde a arquitectura, cujo sumo exemplo é a linha dos aglomerados de betão da Quarteira, a arquitectura deste país tão pobre, tão antigo (como Vera nos lê e Ramalho Ortigão nos escreve), tão ensimesmado, consegue ser arquitectura de novos-ricos, aquela dos círculos de casas todas iguais, de palmeira, piscina e páteo marmoreado.

A afronta à paz das « férias » é tão grande que Vera a assume em si, deita-se no espaço que consegue encontrar na praia sobrelotada, procura relaxar, mas há o golf e as bolas e os insufláveis e as redes e as pessoas e as “sandes” e as casas e as camas e pouco espaço, muito ruído. Nivea, o protector solar, lá tem as suas bolas de encher, e ela brinca com elas: é divertido, uma desenche, outra reenche, outra quase que sufoca. Não há férias no Algarve.

Se o algarve-descanso foi invertido e é em Vera o algarve-frenesi, então a cama onde se dorme é em Vera a cama que se faz muito rápido e com método, esterilizadamente e sempre da mesma forma – ou variando ligeiramente consoante o albergue, pousada, bed breakfast, hotel, resort ou afins. A coreógrafa e intérprete estende-se no palco enquanto se projecta em vídeo um concurso americano de fazer camas, onde três mulheres se apressam perante uma multidão atroante a fazer uma « king size bed ». A lição da história? – Há muita tensão numa cama feita em dois minutos e trinta e três segundos, nos seus lençóis esticados até ao limite, na colcha, essa, que se troca apenas de dois em dois dias.

Os movimentos de Vera Mantero acontecem em diálogo com o trabalho visual de Hugo Coelho (fotografia, vídeo, luz), todos se congregando na construção do sentimento de «desastre» que agora nos provocam certos lugares do Algarve. Na verdade, em Pão Rico permitimo-nos esse delicioso prazer secreto que é o saudosismo simultaneamente nos deixando levar pela nostalgia de outros tempos, de um outro Algarve. 

I/O n°117

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